agosto 22, 2018


O Grupo Tenda e o teatro como intervenção social em João Pessoa.
Papel social, iniciativas e desafios que constituem o cenário do teatro pessoense


O Grupo Tenda de Teatro surgiu em João Pessoa há mais de 45 anos, leciona e forma atores de forma gratuita, através de suas oficinas ministradas por arte-educadores, atores e outros profissionais do teatro, em particular. A Oficina Básica de Teatro que contempla em sua maioria o ensino a jovens que buscam essa manifestação artística como forma de expressão e desenvolvimento emocional e interpessoal, vencendo as barreiras da timidez e das dificuldades cotidianas, socioeconômicas e familiares. Dessas oficinas e seus espetáculos já surgiram centenas de atores, atrizes e técnicos que hoje atuam no teatro paraibano, e em outros recantos do país, e vivem exclusivamente das atividades teatrais. Sendo considerado um dos grupos de teatro mais importante da Paraíba, durante sua trajetória já montou mais de 30 espetáculos, com temas variados.
Fundado por jovens que queriam dar continuidade as suas primeiras experiências no teatro, é hoje uma entidade da cultura local, dentre as mais antigas da cidade, e que tem representatividade estadual e nacional, em vários Festivais e Encontros de Teatro. O grupo conta com o apoio do Núcleo de Teatro Universitário da Paraíba (NTU), e tem incentivado e valorizado cenário teatral paraibano.
“O Tenda começou assim, do mesmo jeito que começa outros grupos. Eu tinha uns colegas lá do Roger, e a gente estava querendo fazer teatro cada um na sua, daí pensamos: Vamos fazer um grupo? Vamos! Sentamos na praça e estudamos como formar, e debatemos bastante, e em seguida começamos um grupo, e foi aí que tudo começou.” Geraldo Jorge de Lima, 73 anos, fundador do grupo.
Geraldo é uma figura de grande significado para todos que passaram pelo grupo ou fazem parte dele. Era através das oficinas e dos ensaios que ele ministrou que os atores que começaram nas décadas de 1970 e 1980 aprendiam a pisar no palco, e ainda hoje, muitos dos jovens que tem pretensão de se iniciar no teatro procuram por ele, que também foi professor de Geografia no Liceu Paraibano, hoje aposentado. Mantém oficinas de teatro aos sábados, gratuitamente, em uma sala do Teatro Lima Penante. Ele revela em entrevista, por meio de lembranças e opiniões, traços da história do Tenda, o processo de formação dos alunos e as circunstâncias com as quais o teatro local se depara atualmente.
“Vimos que havia a necessidade de preparar o pessoal por meio de oficinas para o futuro, todo mundo que chega precisa de uma formaçãozinha. Mas sempre foi assim, a gente pegava as pessoas e dizia: Vamos! Mas vamos para onde? Tinha sempre um exercício, para o pessoal aprender e ir em frente, foi a partir daí que vi que no teatro precisava-se de muito exercício, muitas coisas... É a gente começou a fazer essas coisas, e depois partimos para um trabalho mais apurado.” A dinâmica do grupo envolve oficinas aos sábados que leva o aluno a buscar uma maior desenvoltura no palco. Trata-se de exercícios de dança, de voz, entre outros, que buscam romper com a timidez e estimulam a sensação de liberdade.
As oficinas são gratuitas e regidas por voluntários, o que muitos julgariam prejudicial à qualidade do serviço oferecido, entretanto, segundo relatos de alunos e também da nossa equipe que assistiu a oficina, as aulas possuem excelente qualidade. É atribuído ao grupo, também, a recuperação de pessoas que se encontravam com alto nível de estresse e depressão. Além de auxiliar na diminuição da timidez e no processo de auto-aceitação de muitos alunos. “No início tem que haver um entrosamento entre as pessoas, porque as pessoas chegam com vergonha, com aquele receio. E a coisa que eu prezo mais no início é o entrosamento, depois do entrosamento as coisas começam a trabalhar mais, a progredir mais, para que eles fiquem cada vez mais a vontade.”
Quando questionado sobre as dificuldades do fazer teatral em João pessoa em especial nos últimos anos Geraldo falou sobre uma dificuldade que eles encontraram para conseguir um lugar para os ensaios. “O Teatro Santa Roza, antes, muito antes tinha espaço para todo mundo, qualquer pessoa que chegasse tinha lugar para ensaiar, tanto de manhã, quanto á tarde, e á noite, e a gente começou a ensaiar lá mesmo. Depois é que começaram muitos grupos. Deixamos de ensaiar lá, eu me lembro que a gente ensaiou em muitos cantos: no Liceu Paraibano, na antiga Faculdade de Medicina e etc... Até quando partimos para o Teatro Lima Penante, e até hoje estamos lá, e não pretendemos sair.”     
Ainda sobre as dificuldades o fundador falou, “Olhe, se as autoridades quisessem ajudar, ajudariam não deixando o teatro fechado mais de cinco anos, como deixaram o Santa Roza ficar, isso é um exemplo. Mas poderiam fazer projetos mais simples, porque os projetos que existem para dar subsídios aos grupos são projetos que exigem tanto trabalho, exigem tanta papelada, tanta complicação, tanta burocracia, que dá até um desânimo, e muita gente acaba desistindo. Dificultam demais, se o sistema fosse mais simples, as coisas seriam mais fáceis para os artistas. Hoje, nos festivais de teatro infantil são cinco ou seis grupos que se apresentam, perderam o gosto pelas coisas. Ninguém mais quer fazer teatro, tem receio.”
Geraldo falou nunca ter imaginado que, aquele grupo de amigos que se reuniam para fazer teatro, conseguiram tornar aquilo, que começou por diversão em algo sério e muito reconhecido. “Não imaginei absolutamente, é uma pena porque o movimento do teatro mudou muito, está totalmente mudado, está tudo diferente, muitas pessoas eu revejo, reencontro e fico relembrando aqueles tempos que não voltam mais, mas que a gente poderia ter feito mais, ainda tem tempo para fazer mais coisas, mas o movimento de teatro está assim meio defasado, eu não sei, eu não sei explicar o porquê, mas está muito complicado para fazer teatro.”
Paulo Raulino, 30 anos, é ator e arte-educador, foi aluno do Tenda, e hoje ministra oficinas pelo grupo. Ele conheceu o teatro já na infância, e vivenciou a partir da sua chegada no Grupo Tenda em 2008, o ápice e a concretização de sua aptidão e entrega ao teatro. Sobre sua experiência com o grupo, e a maneira como pôde nesse contexto, engajar-se Paulo colocou: “Conheci o Grupo Tenda, e fiquei encantado pelo projeto que eles faziam, pelo interesse que os participantes tinham, apesar não terem realmente muita oportunidade. Ele tem esse perfil, de acolher as pessoas, me acolheu, me mostrou uma bagagem muito grande, me colocou no que é de fato estar em oficinas de teatro. Eu conhecia o teatro, e tentava buscar, mas o grupo me ensinou a buscar com mais afinco, querer estudar mais. Hoje tenho a honra de ministrar oficinas, o grupo é muito importante para mim, pelo espaço que me deu, pela oportunidade de estar em cena, estar em palco, pelos grandes amigos que o grupo me proporcionou, por conhecer a família que ele é. ”
“É uma forma de viver. Sou apaixonado pelo teatro. É um meio onde se pode expressar e viver mais. O Tenda em si, mostra para mim como o teatro é importante na vida das pessoas, porque ele tem essa função, de resgatar as pessoas, de várias áreas, de várias formas, que tem vontade, interesse, e realmente, te prende, de uma forma positiva, não por uma obrigação, mas porque você acaba descobrindo o quanto é prazeroso o teatro. ” Expressa ele, revelando sua percepção, baseada em diferentes formas de vivência, do que o teatro representa para quem faz parte dele.
Comentando sobre sua visão acerca do papel que o projeto desempenha para quem faz parte dele, e como isso o mantém partícipe do mesmo, ele acrescenta: “Eu tive acesso ao teatro de forma espontânea, gratuita. Então eu acho que o que incentiva a estar no projeto é isso, o fato de poder preparar uma aula, ver alguém se apaixonar pelo teatro como eu me apaixonei no passado, e assim se libertar de muita coisa e aprender muito. Esse projeto está, na verdade, formando pessoas, para o teatro, e também para a vida, tem uma mensagem muito positiva. Movido pela vontade de instruir, de formar cidadãos, fazer com que tenham uma mente pensante. Esse projeto nos coloca lá, disponíveis, para que tenham acesso a isso.” Todos os professores do Tenda são voluntários, os únicos lucros que o grupo recebe são os dos ingressos das apresentações que são 100% revertidos à realização dos espetáculos.
Ainda no mesmo contexto, Paulo comenta sobre o que ele observa nos alunos que passaram, e os que estão com ele no projeto: “Eu vejo que muitos jovens vêm, com curiosidade de conhecer, saber como é uma oficina, outros, tem uma vontade maior. Muitas dessas pessoas que eu vi entrar nesses anos, se tornaram professores de teatro também, outros atuando. Eu vejo neles muita vontade de aprender e de realizar, muitos com o sonho de serem atores. O curso é muito importante para eles, dando acesso ao teatro, à cultura. Para a maioria desses jovens está na oficina significa a realização de um sonho, para outros, significa uma libertação pessoal, encontram outras pessoas lá, com outras energias, outras formas de pensar, de se comportar. Talvez o teatro desperte mesmo a vontade de ser, não ator nem diretor necessariamente para todos ali, mas de ser algo na vida, como um fator de libertação de muitas cadeias que eles vivem, principalmente da timidez”
Conversamos também com alguns alunos que participaram da oficina naquele dia, 05 de maio, e todos enfatizaram a importância do grupo em suas vidas e sobre as mudanças que ocorreram após freqüentarem as oficinas. A maioria dos participantes possui origem humilde e não teriam condições financeiras para pagar pelas oficinas, nem pelos figurinos e tudo o que o teatro envolve. Todos são extremamente gratos a atenção e disponibilidade dos instrutores, além de todo apoio e de todo o trabalho ofertado pelo Tenda de modo geral.
“Eu comecei em maio de 2017, e eu achava que não podia entrar, mas pode em qualquer hora. Eu fiquei pelo fato de que as oficinas me desestressam. Não, necessariamente, você precisa estar aqui para ser ator ou atuar. Você pode estar aqui para desestressar ou para trazer uma leveza para o seu dia a dia, aí eu fui ficando.” Disse Albenidia, estudante de Biotecnologia na UFPB, Universidade Federal da Paraiba. “Eu sou tímida, eu pareço ser extrovertida, mas eu me sinto muito travada e isso me auxilia muito nessa questão.”
“Eu vejo a diferença daqui, dentro, para lá, fora é o acolhimento, o povo além de ter a mente muito aberta é muito acolhedor. Lá fora é muito difícil e aqui as pessoas lhe recebem como uma família. Uma coisa que eu nunca tive e aqui eu aprendi a ter.” Relatou Tiago, 29 anos, trabalha como segurança e também é ator “Eu conheci a oficina 13 anos atrás, através de um amigo meu, que fazia comigo o Pro-Jovem. Ele me falou e eu vim mais para perder a timidez, eu era muito tímido, e eu tinha uma mente muito fechada e abriu demais a minha mente, sem falar da expressão corporal que melhorou muito e minha postura também. Então eu vim e me apaixonei e estou aqui há 13 anos no Tenda e é muito bom.”
“Você vai para um grupo diferente e vê que as pessoas estão lá dando o sangue por aquilo e aquilo lhe ajuda, motiva” falou Natanael, 19 anos e está cursando o ensino médio. “O teatro é uma coisa que eu gosto muito. Porque ali é o momento onde você não é você. E muito diferente lá de fora cada pessoa no seu lugar eu quero isso, é como se tivesse mais união no teatro, integração. Na faculdade já é aquela de coisa de cada um querendo ser maior que o outro, a concorrência.”
“Eu gosto muito dessa área, apesar de ser formado na área da saúde. Ajuda muito a tirar minha timidez” Relatou Weliton, 29 anos, técnico em Enfermagem “Eu pretendo levar o teatro para minha vida até o dia em que Deus disser chega, está bom! Você não vai mais ficar na terra, vai morrer. Pretendo levar sim. Pretendo participar de várias oficinas aqui no Tenda.”
As oficinas de teatro do Grupo Tenda acontecem aos sábados às 14 horas e são abertas ao publico em geral. Não existem pré-requisitos para entrada no grupo e ele está aberto a novos membros e visitas a todo momento.

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